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Crise na Venezuela pode provocar alta no preço dos alimentos no Brasil

Com possível alta nos preços do petróleo, insumos agrícolas podem ficar mais caros e impactar preço de alimentos
06 jan 2026 às 12:39
Por: Band
Foto: Ari Dias/AEN

A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças ligadas ao governo dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, inaugura um novo e tenso capítulo na geopolítica da América do Sul, trazendo alertas imediatos para a economia brasileira. Embora a Venezuela não figure hoje entre os maiores parceiros comerciais do Brasil, o episódio eleva o grau de incerteza regional. 


Segundo especialistas, os reflexos devem ser sentidos em canais estratégicos como o preço dos combustíveis, o fluxo migratório na fronteira Norte e a volatilidade do câmbio. Com preços mais elevados do petróleo, insumos agrícolas como fertilizantes podem ficar mais caros, elevando o custo de produção de alimentos em todo o Brasil (e países vizinhos).


Para André Charone, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais, os impactos econômicos podem não ser imediatos em termos de Produto Interno Bruto (PIB), mas exigem monitoramento rigoroso do governo e do setor produtivo.

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O fator petróleo e a inflação

O primeiro e mais sensível canal de transmissão dessa crise para o bolso do brasileiro é o energético. A Venezuela detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Apesar de sua produção estar limitada por anos de sanções e falta de investimento, a instabilidade política gera nervosismo no mercado global.


No curto prazo, a tendência é de elevação no "prêmio de risco" — um custo extra embutido nos preços devido à incerteza. “Mesmo que a produção venezuelana atual seja relativamente baixa, qualquer evento que gere instabilidade em países produtores afeta expectativas e contratos futuros”, explica Charone.


Para o Brasil, que depende majoritariamente do transporte rodoviário para escoar sua safra e abastecer as cidades, isso é preocupante. Uma alta no petróleo internacional pressiona o custo dos combustíveis internamente. “Em um país onde logística e transporte têm peso relevante nos custos, a volatilidade do petróleo sempre chega ao consumidor final”, destaca o especialista, alertando para possíveis pressões inflacionárias.


Impacto no comércio e na Região Norte

Do ponto de vista das trocas comerciais, a Venezuela representa uma fatia pequena da balança brasileira, mas é estratégica para estados fronteiriços. Regiões como Roraima e Amazonas têm na Venezuela um destino importante para exportações de alimentos, produtos industrializados leves e bens de consumo. A ruptura institucional trava essa dinâmica. “A instabilidade política tende a afetar pagamentos, seguros, transporte e contratos”, afirma Charone.


O professor ressalta que, embora o impacto nos grandes números macroeconômicos do Brasil seja limitado, para as empresas regionais o prejuízo pode ser significativo. Em um cenário futuro de normalização, o Brasil poderia ampliar as vendas para suprir o desabastecimento vizinho, mas isso depende de uma segurança jurídica que inexiste no momento atual.


O desafio fiscal da migração

Outro ponto de atenção direta para o governo brasileiro é o fluxo de pessoas. Uma eventual escalada de conflitos ou a demora na estabilização política pode intensificar a entrada de refugiados pela fronteira Norte. Isso gera uma pressão imediata sobre os serviços públicos de saúde, assistência social, educação e segurança. “O custo fiscal não aparece imediatamente no PIB, mas pesa nos orçamentos locais e federais”, observa Charone. O especialista pondera, contudo, que políticas assertivas de interiorização podem transformar parte desse desafio em força de trabalho no médio prazo. 


O especialista destaca também que o risco financeiro associado à percepção de perigo na região e faz um alerta. A captura de um chefe de Estado gera ruído nos mercados globais. Em situações assim, é comum que investidores retirem dinheiro de países emergentes — como o Brasil — em busca de portos seguros em economias centrais. Esse movimento, conhecido no mercado como "fuga para a qualidade", pode pressionar o câmbio, encarecendo o dólar. “Não é um choque estrutural para o Brasil, mas eleva o ruído em um momento em que o país busca atrair capital e consolidar credibilidade fiscal”, avalia o professor.


Para o agronegócio e a indústria, isso pode significar custos maiores na importação de insumos e máquinas. A conclusão de Charone é de cautela: o Brasil não é protagonista do episódio, mas está na zona de influência direta. O desfecho econômico dependerá agora dos próximos passos políticos: se haverá uma transição negociada ou o prolongamento da instabilidade.

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