Agro

Ministério admite que não existe cadeia produtiva de jumentos no Brasil

10 jun 2026 às 14:06

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) reconheceu, em documento oficial, que não existe no Brasil uma cadeia produtiva estruturada de jumentos destinados ao abate para a exportação de peles à China. A manifestação, elaborada pela Secretaria de Defesa Agropecuária, atende a questionamentos do deputado federal Bruno Ganem (PODEMOS-SP) apresentados no fim de 2025. Segundo o órgão governamental, ao contrário do que ocorre nos setores de bovinos, aves e suínos, a atividade baseia-se no recolhimento de animais criados de forma esparsa.


O relatório ministerial aponta que os animais encaminhados aos abatedouros, concentrados na Bahia, são descritos como "predominantemente de descarte". Na prática, tratam-se de jumentos de trabalho descartados ou abandonados ao fim de sua vida produtiva e sem valor comercial no mercado. A falta de informações adequadas de rastreabilidade e de garantias mínimas de biossegurança também constam nas análises técnicas sobre o cenário nacional.


Fragilidade no controle e riscos sanitários


O documento oficial do MAPA detalha que a Guia de Trânsito Animal (GTA) apresentada durante os transportes rodoviários falha no controle de origem. O texto indica que o documento fiscal comumente não aponta a procedência real de todos os indivíduos, mas apenas os locais temporários de reunião dos lotes.

Segundo o médico veterinário e Doutor em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), José Roberto Lima, os jumentos permanecem nesses pontos provisórios em condições precárias, sem acesso adequado à água, alimentação ou cuidados veterinários.


A atividade atende ao comércio de peles com o mercado chinês, que utiliza o colágeno extraído da pele do animal para a produção de ejiao. O produto é comercializado na Ásia como um revigorante físico, embora não possua comprovação científica de eficiência.


Redução populacional e risco de extinção


Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e outras instituições alertam para o caráter extrativista do abate. O cruzamento de dados do Ministério da Agricultura, do IBGE e do sistema Agrostat revela que o Brasil perdeu 94% de sua população de jumentos entre 1996 e 2025. Atualmente, restam apenas seis animais para cada 100 existentes na década de 1990.


Para a PhD em Ciências pela USP, Patricia Tatemoto, a admissão do governo federal de que não há criação organizada desbanca o argumento de que existe uma pecuária sustentável no setor. Especialistas defendem que o parecer técnico reforça os argumentos jurídicos pela proibição definitiva do abate da espécie sob o risco de extinção nos próximos anos.


O relatório da pasta também associa o descarte à baixa qualidade sanitária dos animais adquiridos, gerando risco reputacional ao agronegócio brasileiro. O embargo setorial ocorre em momento sensível para as negociações do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que prevê restrições severas a partir de setembro. De acordo com a coordenadora da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, a advogada Gislane Brandão, a prática expõe a ausência de sustentabilidade e a falta de políticas públicas voltadas aos cuidados com os animais no país.

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