A adoção da inteligência artificial nas empresas atravessa
uma nova etapa. Depois da corrida pela utilização de ferramentas capazes de
gerar textos, imagens e respostas automáticas, organizações de diferentes
setores começam a direcionar investimentos para aplicações menos visíveis ao
usuário, mas com impacto direto na operação. Em vez de atuar apenas como um
assistente conversacional, a IA passa a assumir fluxos completos de
atendimento, integrando bases de dados, sistemas internos e regras de negócio
para executar processos de forma autônoma.
Esse movimento já alcança também o terceiro setor. Embora
tradicionalmente associado a estruturas mais conservadoras na adoção de
tecnologia, entidades representativas passaram a enfrentar um desafio semelhante
ao de grandes empresas privadas: atender um volume crescente de demandas sem
ampliar proporcionalmente as equipes.
O cenário acompanha a expansão do próprio setor. Segundo o Global
NGO and Charities Market Report 2025, da The Business Research Company,
organizações sem fins lucrativos movimentaram cerca de US$ 330 bilhões em 2024,
com expectativa de ultrapassar US$ 435 bilhões até 2029. À medida que essas
instituições ampliam sua atuação, cresce também a necessidade de oferecer
atendimento rápido, padronizado e disponível em tempo integral para públicos
cada vez mais diversos.
Na Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e
Turismo (CNC), essa necessidade levou à reformulação completa do modelo de
atendimento digital. A entidade, que representa mais de um milhão de empresas e
coordena uma rede formada por mais de 270 federações e sindicatos patronais,
implantou uma plataforma de inteligência artificial integrada ao WhatsApp para
centralizar o relacionamento com empresários, sindicatos e demais públicos
atendidos pela instituição.
Diferentemente dos chatbots tradicionais, baseados em
árvores de decisão e respostas pré-programadas, o sistema foi treinado com
linguagem institucional, regras operacionais e bases de conhecimento da própria
entidade. A plataforma interpreta a intenção do usuário, identifica o contexto
da solicitação, consulta informações internas e conduz o atendimento de forma
autônoma, transferindo ao atendimento humano apenas os casos que exigem análise
especializada.
Na prática, aproximadamente 90% das solicitações passaram a
ser resolvidas sem intervenção humana, enquanto apenas cerca de 10% seguem para
as equipes técnicas. Em apenas dois meses, a solução foi implantada em 14
unidades da rede e possui potencial de expansão para mais de 270 entidades
ligadas ao Sistema Comércio, com expectativa de superar 80 mil atendimentos
mensais.
Para Willian Crizostimo, CEO da BW8 Martech, responsável
pelo desenvolvimento da plataforma, a principal mudança provocada pela
inteligência artificial não está na capacidade de produzir respostas mais
rápidas, mas na integração entre processos que antes operavam de forma isolada.
"Durante muito tempo a inteligência artificial foi
percebida como uma ferramenta para responder perguntas. Hoje ela passa a coordenar
operações completas. Quando conecta canais de atendimento, bases de dados,
fluxos internos e regras de negócio, deixa de ser apenas um recurso de apoio e
passa a fazer parte da própria operação da empresa."
Segundo o executivo, esse tipo de arquitetura permite que
equipes humanas concentrem esforços em atividades de maior complexidade,
enquanto tarefas repetitivas passam a ser executadas continuamente pela
plataforma.
A adoção desse modelo também altera a forma como
organizações estruturam seus investimentos em tecnologia. Em vez de desenvolver
aplicações independentes para cada departamento, cresce o interesse por
plataformas capazes de integrar atendimento, marketing, relacionamento, CRM e
automação de processos em um único ecossistema de dados.
O projeto desenvolvido para a CNC recebeu o primeiro lugar
na categoria Melhor Case de Grandes Empresas do Prêmio Limitless 2025,
promovido pela RD Station, que reconhece iniciativas voltadas à geração de
resultados por meio de tecnologia aplicada às áreas de marketing, vendas e
relacionamento.
Esse tipo de implantação sinaliza uma mudança de foco na
adoção da inteligência artificial. Se a primeira onda esteve concentrada em
ferramentas generativas voltadas à produtividade individual, a etapa atual
passa pela automação de processos críticos, pela integração entre sistemas
corporativos e pela capacidade de escalar operações sem ampliar estruturas na
mesma proporção.