Economia

Mesmo com superávit, EUA impõem novas tarifas ao Brasil

24 jul 2026 às 13:03

Mesmo novamente na mira de tarifas e sanções comerciais impostas pelo governo de Donald Trump, o Brasil acumula um déficit de US$ 144 bilhões (cerca de R$ 734 bilhões) nas últimas quatro décadas de comércio de bens com os Estados Unidos. Os dados, extraídos do Departamento do Censo norte-americano, mostram que a balança favorece Washington, que registrou saldo positivo em 26 dos 41 anos da série histórica.


Ao somar a troca de bens e a prestação de serviços, o lucro acumulado pelos EUA no mercado brasileiro chega a US$ 480 bilhões (aproximadamente R$ 2,4 trilhões) entre 2000 e 2025, segundo o Departamento de Análise Econômica (BEA). O desequilíbrio favorável aos americanos, contudo, não impediu a aplicação de uma nova tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras, além de uma taxa adicional de 12,5% sob a alegação de falhas no combate ao trabalho escravo.


Em sabatina no Senado americano, o indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, reconheceu o superávit expressivo de seu país, mas evitou justificar a sanção recente. Da mesma forma, o chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, argumentou que, apesar do saldo positivo, Washington identifica "barreiras tarifárias e regulatórias" no mercado brasileiro.


Histórico de oscilações e virada em 2008


A relação comercial entre as duas nações passou por transformações ao longo das últimas décadas. Entre 1985 e 1995, o Brasil mantinha saldos positivos nas trocas com os EUA. A dinâmica começou a mudar durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso, impulsionada pelo aumento das importações de aeronaves, veículos e equipamentos de tecnologia americanos.


O país voltou a registrar ganhos pontuais na balança até atinja um superávit recorde em 2005, puxado pelas vendas de minério de ferro, petróleo, ouro e café. No entanto, a partir da crise financeira global de 2008, os EUA não voltaram a ter saldo negativo com o Brasil na troca de bens.


Apenas em 2025, o déficit brasileiro atingiu US$ 14,4 bilhões. Já no setor de serviços, o saldo é favorável aos americanos de forma ininterrupta desde 1999, atingindo o pico de US$ 27,4 bilhões em 2025.

Atualmente, o Brasil figura como o segundo parceiro comercial mais taxado pela Casa Branca, com tarifa média de 18,2%, ficando atrás apenas da China.


Disputa pelo etanol e pressão no agronegócio


Especialistas e analistas internacionais apontam que as novas tarifas extrapolam a lógica do equilíbrio balançar. Para o pesquisador Tomás Marques, do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), a imposição de taxas busca reorientar fluxos de mercado e recuperar a competitividade industrial americana.


A lista de exceções criada pelo USTR preserva commodities agrícolas e minerais que os EUA não conseguem suprir internamente. Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, isso faz com que apenas 18% das exportações brasileiras destinadas aos EUA sejam efetivamente afetadas.


Um dos pontos centrais da ofensiva norte-americana é o mercado de etanol. Washington acusa o Brasil de ter alterado o tratamento tarifário do combustível importado a partir de 2017. Por sua vez, analistas avaliam que o impasse reflete a apreensão dos produtores americanos diante do avanço e da concorrência do agronegócio brasileiro no mercado global.


"Eles são concorrentes dos Estados Unidos, especialmente na agricultura. Sempre que tentamos vender nossas commodities no exterior, competimos com os brasileiros", declarou o chefe do USTR, Jamieson Greer, em evento do Atlantic Council.


Apesar da vulnerabilidade brasileira nas negociações pelo peso das empresas americanas no país, historiadores e economistas destacam que a imposição de barreiras eleva os custos internos nos próprios Estados Unidos, uma vez que o Brasil é o fornecedor principal de pelo menos 11 insumos estratégicos que integram cadeias produtivas das indústrias americanas.

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