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Pode confessar...
Assim como eu, você sentiu aquela inveja da Argentina, finalista da Copa do
Mundo de 2026. Não adiantou se compadecer com Cabo Verde, nossa segunda seleção
nesta Copa. Deu Argentina! Não adiantou vibrar com a arrancada do Egito, que
esteve perto de chegar nas quartas de final pela primeira vez. Tomou a virada...
Deu Argentina! Secamos os hermanos contra a Suíça e parecia que iria dar
certo... Deu Argentina! E acreditamos que a Inglaterra pudesse trazer uma alegria
nessa Copa. Amarelou... Deu Argentina!
Essa
sequência de jogos repletos de superação pela nossa maior rival nos faz refletir:
eles são melhores que nós? E o que acontece com nossos craques?
Essa reflexão
é feita, sobretudo, para quem viu gerações distintas da Seleção Brasileira. No
passado, até o período em que comemoramos o nosso quinto título mundial, parávamos
para ver a Seleção Brasileira com a certeza da vitória. Era um time temido, que
impunha respeito independente do adversário. Felizes são os mais antigos, como
nossos pais, nossos avós, que tiveram o privilégio de ver Pelé, Jairzinho,
Tostão, Gérson, Carlos Alberto Torres entre outros...
Mas ficamos
saciados da vitória com Romário, Bebeto, Dunga, Taffarel, Ronaldo Fenômeno, Rivaldo,
Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Cafú... Lamento pelos torcedores mais jovens
que ainda não saborearam uma conquista de Copa do Mundo.
Os nomes
citados acima fizeram parte dos últimos esquadrões campeões, em 1994 e 2002. Timaços!
Detalhe: muita gente boa ficou de fora em razão da concorrência naquele
momento. A pergunta é: será que seremos capazes de ter novamente uma nova
Seleção Brasileira campeão mundial? É possível extrair vencedores da atual geração
de atletas, que se preocupa com marcas, cabelo, tatuagens, fones de ouvido,
celulares, redes sociais? Fica claro que o caminho para a conquista de uma Copa
do Mundo não é por aí.
Perdeu-se a essência
de vestir a camisa amarela e a derrota não dói mais. Não impacta. Vida que
segue com ou sem a Virgínia... Deveria ser o contrário. Um evento dessa
grandeza atrai as atenções de todo o planeta. E quem fosse escolhido para
defender a Seleção Brasileira deveria ter em mente que o fracasso é inaceitável.
E os fracassos têm se repetido, se tornaram costumeiros. Talvez o ‘xis’ da
questão esteja aí. Quem é convocado representa exclusivamente os interesses da
CBF? Ou será que parte para a Copa com o mínimo de compaixão pelo anseio de
toda uma nação? É de se pensar.
O fato é que
não somos mais temidos. Em outras épocas, era melhor ter uma derrota antes para
evitar um confronto com a Seleção Brasileira. Agora, a visão que os adversários
têm sobre nós é que enfrentar os jogadores brasileiros parece ser o caminho
mais fácil. A Noruega fez isso. A Noruega, cujo melhor resultado na história
das Copas foi uma chegada nas quartas de final. E só.
No Mundial
de 2026, não vencemos o Marrocos, sofremos para derrotar o Japão, situações que
eram impensáveis no passado. Ambos evoluíram, o que é ótimo para o futebol.
Torna o esporte mais competitivo. Mas fica a questão: e nós? Paramos no tempo?
Retrocedemos?
Astros soberanos
Nesse
quesito, vale dar um passo para traz e buscar inspiração justamente na seleção
que muitos de nós torcemos contra. Na Copa do Mundo de 2026, a finalista Argentina
já mostrou que não aceita a derrota, não aceita o fracasso. São os atuais campeões
e estão na eminência de mais um título. É verdade que eles têm um ser
fenomenal: Lionel Messi. Aos 39 anos, Messi vem tendo a sua melhor das seis
Copas que disputou. Protagonista, líder, decisivo, artilheiro! Oito gols nesta
edição, a Copa em que ele mais balançou as redes. E com esse desempenho, é o
jogador que mais fez gols na história dos Mundiais. Já são 21 gols e essa conta
ainda pode aumentar.
No entanto, Messi
não colocou a Argentina sozinho nesta decisão. Tem todo um time que, sim,
depende dele. Mas que joga por ele. Estende o tapete para que o camisa 10
brilhe. Essa mistura de talento, vontade, persistência e raça constrói uma
seleção a joga pelo seu país, joga pela glória, joga futebol...
Apogeu
Em 2022, a
Argentina acabou com um jejum de 36 anos. Foi um longo hiato entre o segundo
título conquistado em 1986 e o tricampeonato mundial. Antes, a Argentina era
tratada como uma ‘amarelona’. Mesmo com Messi em campo, era taxada como incapaz
de vencer uma Copa do Mundo. Foi resiliente. Se reinventou. Trocou o ‘pneu com
o carro andando’ durante a Copa passada e comemorou o tri.
E começou a
Copa do Mundo de 2026 com moral pela conquista. Foi para a América do Norte com
boa parte do time campeão quatro anos antes. E já surgiu o preconceito, afinal
de contas, a Argentina foi taxada de envelhecida. O favoritismo se voltou para
a badalada França e as apostas mostravam que a Argentina seria incapaz de ser
campeã novamente. Ainda não venceu, é verdade. Tem o maior e o principal
desafio pela frente: a final contra a Espanha. Mas chegou na decisão! Superou
obstáculos. Saiu da condição de um time eliminado diversas vezes durante a Copa
para uma vaga na final.
Aliás, será a
terceira decisão da Argentina nas últimas quatro edições da Copa do Mundo.
Enquanto a
Argentina reassumiu o apogeu no universo do futebol, acumulamos fracassos. Não
vencemos uma seleção europeia num jogo de mata-mata de Copa do Mundo desde a
conquista do penta, em 2002. Quem viu a conquista da quinta estrela mantém viva
a lembrança de como é bom ser campeão. Por hora, nos resta secar. Quem já
torceu contra a Argentina, obviamente, irá torcer para a Espanha na decisão inédita
do próximo domingo (19). É claro que essa arrancada da Argentina arrebanhou
seguidores e contagiou corações. Sim. Vai ter brasileiro torcendo por mais um
título de Messi e companhia.
É bom
lembrar que ninguém vence na véspera e apesar de toda a saga até aqui tem uma
gigante do outro lado. A certeza que temos é que Espanha e Argentina farão um
jogo imperdível, uma final digna das duas principais forças do futebol na
atualidade. É necessário reconhecer que as duas estão absurdamente acima da
gente. Cada uma com suas virtudes, com suas características, com seus
craques... E o que Espanha e Argentina têm feito de diferente nesta Copa que
lhes colocou na final? Estão, simplesmente, jogando futebol.