Uma pesquisa do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa da Universidade de São Paulo (RCGI-USP) resultou em uma patente inédita para a fabricação de um fertilizante inteligente. A tecnologia utiliza estruturas metal-orgânicas (MOFs) — materiais que renderam o Prêmio Nobel de Química de 2025 — e foca na agricultura regenerativa.
O projeto foi desenvolvido em parceria com a Shell Brasil, Unesp, Novamérica e as deep techs MOF TECH e Quanticum. O insumo tem potencial para recuperar cerca de 150 milhões de hectares de terras degradadas no Brasil, o que permitiria expandir o volume agrícola sem desmatar novas áreas.
Segundo a coordenadora do projeto, professora Liane Rossi (IQ-USP), o fertilizante une engenharia de materiais avançados à ciência do solo. Ele simula os processos naturais de retenção e liberação de nutrientes sob demanda das plantas, operando sob os preceitos da química verde: sem gerar resíduos e com baixo uso de água.
Ação no solo e testes em lavouras
As nanopartículas de MOFs agem como minerais sintéticos que corrigem distorções comuns nos solos tropicais, caracterizados pela acidez elevada e baixa fixação de compostos. A tecnologia eleva a capacidade de retenção de nutrientes, restaura a matéria orgânica e amplia o estoque de carbono fixado na terra.
Testes em campos comerciais de cana-de-açúcar, soja e café indicaram:
Aumento real de produtividade;
Maior volume de carbono retido no solo e redução de emissões de CO₂;
Melhora nas condições físicas e biológicas da terra;
Maior resistência das plantações contra pragas e doenças.
Custo 70% menor e escala industrial
O principal diferencial mercadológico da inovação está no processo produtivo. O método brasileiro corta em 70% o custo de fabricação das MOFs se comparado às técnicas internacionais tradicionais, tornando viável a aplicação em larga escala.
De acordo com Barbara Samartini, líder de projetos da Shell Brasil, o composto já passou por validação em escala de quilogramas. O próximo passo envolve a transição para a produção industrial em toneladas para acelerar a inserção comercial do insumo.
A tecnologia também abre espaço para diminuir a dependência nacional da importação de fertilizantes e gerar novos ativos no mercado de créditos de carbono.